Rui,

Precisamos de falar. Vou ser direto: as coisas não estão a resultar entre nós. Não é que eu não quisesse que resultassem, quis muito. Mas simplesmente chegámos a um ponto em que só nos estamos a destroçar aos dois se continuarmos a insistir neste engano.

Não te quero magoar. Recordar-te-ei sempre como alguém com um bom coração, com quem não me importaria de jantar daqui a uns tempos, quando a poeira assentasse. Ambos sabemos que, ultimamente, as coisas têm sido para lá de terríveis, mas não me esqueço dos momentos incríveis que vivemos. A vitória em Madrid, o golo do Mitroglou em Alvalade, os quartos da Champions, aquele tetra consagrado com goleada ao Guimarães.

E nos maus momentos, quando a minha ex te insultou e te disse que estavas a aproveitar-te da inteligência emocional que ela diz que me deixou a mim, estive sempre ao teu lado porque sempre soube que valias a pena e que ias dar a volta por cima.

O amor são resultados. E isto não está a resultar, por muito carinho que às vezes ainda nutra por ti. Eu sei que sou difícil, exigente demais talvez, mal habituado, mimado. Admito tudo isso. No entanto, quando nos juntámos já sabias dessas minhas falhas. Eu não quero que isto te magoe, mas até tu tens noção que nós, nestes últimos meses, apenas nos tolerávamos. No primeiro ano,  cheguei a estar perdidamente apaixonado por ti.. Depois, fui ignorando bandeiras vermelhas que não devia ter ignorado, como a derrota em Basileia ou o Felipe Augusto.

Sinceramente, devia ter acabado contigo com os zero pontos na Champions. Na sexta-feira, chegámos a um ponto sem retorno. Desculpa, Rui, mas eu não posso aceitar estar com alguém que me valoriza tão pouco que permita que leve três na pá do Moreirense. Não dá mais. Acabou.

Sei que as pessoas andam a falar sobre nós. Dizem que eu vou voltar para a minha ex, que ela vai largar o emprego de hospedeira na Arábia para voltar para mim. Soube que isso te chegou aos ouvidos e que te causa uma dor dilacerante. Em primeiro lugar, Rui, percebo que isso te leve a odiar-me, mas não podes pensar que o meu futuro te continua a pertencer.

Sabes que cortei relações com a ex enquanto estivemos juntos porque tu me pediste, mas agora não tens nada a ver com quem eu ando ou deixo de andar. Sim, eu sei que voltar para alguém que se tornou numa pessoa tóxica para mim, muito provavelmente não irá resultar. Sei lá, ela é uma besta, mas ainda me dá uma certa tus… esquece, Rui, não tens de ouvir isto.

Espero que sejas feliz no caminho que escolheres. Tenho esperança que o Arnaldo perceba a situação, ele é um porreiro e não tem culpa nenhuma disto - gostava de ficar amigo dele, mas sei que não vai dar. Vais ter de ser tu a sair, porque a casa ainda é minha, mas eu prometo que te pago o dinheiro que gastaste em garrafas de água do teu bolso. Podes vir cá buscar as tuas gravatas quando quiseres. Sei que é um momento difícil para ti, mas temos de assumir e saber conviver com o insucesso.

Outrora teu,

Benfica.

 

Artigo de Manuel Cardoso em 24.sapo.pt