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Lembra-se onde estava quando soube que a revolução estava na rua?

Se a memória não me falha, estávamos a acabar o treino da manhã, no Estádio da Luz. Apareceu alguém a dizer que havia uma revolução. Gerou-se uma enorme curiosidade e euforia em relação ao que se estava a passar. Depois recordo-me perfeitamente de ir para casa e de assistir na RTP à informação da Junta de Salvação Nacional, liderada pelo General António Spínola. Senti, como todos aqueles que me rodeavam, um enorme contentamento. Todos percebemos que era o fim da ditadura e da queda de um regime que estava indiscutivelmente podre.

Os jogadores falavam entre si de política?

Em 1972 foi criado o Sindicato Nacional dos Profissionais de Futebol. Eu fui um dos jogadores que mais se empenhou na construção do sindicato, que foi o único criado antes do 25 de Abril. Até aí não existiam sindicatos em Portugal, mas organizações clandestinas que tentavam pressionar e representar os trabalhadores na clandestinidade. Nada disso era permitido ou estava na Constituição.

Fez parte da Comissão Instaladora do Sindicato que teve como primeiro presidente Artur Jorge...

Exatamente. Fui dirigente sindical durante muitos anos e sou aquele que desperto os jogadores para a direitos que não nos assistiam na altura. Em 68, tinham 20 e tal anos, dou uma entrevista ao jornal "A Bola", e perguntam-me qual eram os direitos dos jogadores de futebol. Respondi: nenhuns.

Quais eram as principais reivindicações? O fim da Lei da Opção?

Sim. A nossa maior luta era a liberdade contratual, como hoje existe. A Lei Bosman aparece muito mais tarde, mas o fim da Lei da Opção foi o primeiro sinal. Pela primeira vez na história do futebol português, os clubes são obrigados a pagar 70% do valor da oferta do clube que pretende contratar o jogador. Ou seja, se um clube pretendesse contratar um jogador em final de contrato por mil contos, o clube de origem tinha de pagar 700 contos.

Mas isso já em 74...

A reivindicação era anterior, mas só se concretizou depois da revolução. Depois do 25 de Abril, até se exagerou porque o jogador podia rescindir se alegasse que se encontrava sem condições psicológicas para permanecer no clube. À portuguesa, passou-se do oito para o oitocentos. Nesta terra é sempre assim. Os jogadores tinham direito a ter essa liberdade contratual pela qual eu e outros lutaram durante muitos anos, mas não era preciso exagerar. Parecia que havia uma atitude compensatória, após tantos anos a jogar sem direitos nenhuns. Estamos a falar de uma atividade que não era um negócio, de um futebol que era paixão e não indústria. De uma sociedade que vivia com essa emoção, mas exercida respeitosamente. Hoje, é completamente diferente.

Já se podia de falar de futebol profissional ou ter jogadores a tempo inteiro era um exclusivo dos três grandes?

O profissionalismo era dominado pelos três grandes, embora todas as equipa da I Divisão treinassem todos os dias....

Nos outros clubes, alguns jogadores acumulavam o futebol com outras profissões?

Havia uma fatia de jogadores, talvez mais atentos à vida pós futebol, que fazia questão de manter uma profissão alternativa para quando acabassem de jogar e nunca abandonaram os seus empregos, principalmente no funcionalismo público ou nos bancos. O que acontecia é que os clubes punham uma cunha para que conciliassem as duas atividades. Como no serviço militar, arranjava-se uma forma de o jogador não trabalhar a tempo inteiro para não faltar aos treinos. Havia um certo privilégio em relação aos profissionais de futebol.

Os jogadores já descontavam para a Segurança Social, que julgo era outras das reivindicações do sindicato?

Quando se fundou o sindicato, pagávamos imposto profissional e imposto complementar, que os clubes descontavam do salário. Curiosamente, quando chegou à altura da reforma, houve muitos casos em não apareciam os descontos feitos. No meu caso, durante os primeiros quatro ou cinco anos, nada aparece. Um seja, não havia um histórico de descontos da Segurança Social, embora a entidade patronal nos tivesse retirado essa verba. Muitos queixaram-se que descontaram 15 anos e só figuravam sete ou oito, o que se refletia no valor das reformas...

Os clubes não entregavam os descontos ao Estado?

Acontecia pela irresponsabilidade dos dirigentes. No fundo, até agora sucedem muitas destas coisas nas empresas. A fuga ao fisco é uma tentação que permanece. Até me apetece dizer que é genético. A malandrice está enraizada. O cidadão, ou cidadã, que tem brio em ser honesto não é bem encarado por parte da sociedade. O honesto é visto quase como um pateta, um parvo: “Então, pá, estás a pagar isso? Não tens nada que pagar”. Há uma certa cultura do não cumprimento da regra.

O treinador do Benfica em abril de 74 era Jimmy Hagan?

Era, mas saiu no decurso da época e foi substituído pelo Fernando Cabrita. E em 74/75 chega Milorad Pavic.

Da parte do treinador ou do presidente Borges Coutinho foi feita nos dias da revolução alguma comunicação aos jogadores? Os treinos e jogos mantiveram-se?

Não me recordo que tenha existido da parte da direção qualquer atitude ou posicionamento em relação ao golpe militar ou ao novo regime. O que percebe na altura é que a partir daquele dia nada seria igual. É um facto. E os primeiros a perceberem isso foram os jogadores. Vinham de uma luta não totalmente conseguida e, a partir daquele momento, sentem que será completamente conseguida. E também há essa perceção por parte dos dirigentes. Todos tentaram percorrer o seu caminho, adaptando-se a uma situação nova.

Sentia-se a lufada de liberdade...

Sentia-se, dentro e fora dos clubes. Estavam criadas todas as condições para que finalmente houvesse total liberdade contratual. Tanto quanto me lembro, o calendário de treinos e jogos manteve-se.

É justo dizer-se que o Benfica era o clube do regime?

São equívocos históricos criados na altura e que repudio completamente. É uma tentativa de retirar valor, até orgulho, a uma geração espontânea de grande qualidade que conquistou a Europa e o mundo através da sua arte e talentol. Para que se esclareça a situação, a única vez que fui recebido por António Oliveira Salazar ao longo de todos os anos que joguei no Benfica foi em 1966, no regresso do Mundial de Inglaterra.

O Benfica tinha mais títulos nacionais (20 até 1974) porque tinha as melhores equipas e Eusébio?

Sem dúvida. Fomos recebidos por Salazar unicamente nesse dia, após a conquista do terceiro lugar no Mundial. Nunca antes nem depois estive na sua presença. Devo dizer, aliás, que Salazar nunca foi um fã de futebol, nunca deu um tostão aos clubes. Não digo que odiasse futebol, mas não perdia tempo com o futebol. Ao ponto de quando lhe fomos apresentados por Américo Tomás – que gostava imenso de futebol - ele confunde o Coluna com o Vicente e o Vicente com o Hilário. Não conhecia sequer os jogadores da seleção.

Mas impediu o Eusébio de ir para o estrangeiro...

É tudo conversa. Desminto que alguma vez o regime tenha impedido Eusébio de sair do país. Foi um aproveitamento dos homens de esquerda para dizer que até o desgraçado do Eusébio foi uma vítima de Salazar. Portugal ainda vive com esse complexo. Criaram uma história, uma mentira, que tantas vezes contada passou a ser verdade. O senhor Eusébio não vai para Itália porque, nesse ano, a Itália proibiu a entrada de estrangeiros.A ser eliminada pela Coreia do Norte, os jogadores são recebidos com tomates e hortaliças em cima deles. É a Federação do calcio que resolve proibir a entrada de estrangeiros para dar oportunidade aos italianos e para que pudessem formar uma nova seleção. Esta é a verdade. Nós servimos o regime involuntariamente e não nego que o regime se aproveitou da grandeza dessa geração. Foi o Benfica e a seleção que voltaram a colocar Portugal no mapa. E o novo regime não se serviu e serve do futebol?

As vitórias dos desportos de massa são propaganda?

Não tenho dúvidas em dizer que foram os novos políticos que mais se serviram do futebol. Quantos milhões foram dados ao futebol sem fiscalização? Quantos milhões deram as câmara municipais ao futebol? E para fazer o quê? Onde está a utilidade dos milhões que foram tirados ao povo para dar ao futebol após o 25 de Abril? É a questão que deixo.

A época da revolução foi pintada de verde, com o Sporting a fazer a dobradinha...

Sim, tirou-nos o título. No meu tempo, nunca o Benfica foi tetra porque o Sporting roubava-nos sempre o quarto campeonato. Foi a razão pela qual a geração Eusébio, Simões, Mário Coluna e companhia nunca foi tetra. Em 74/75 o Benfica volta a ganhar o campeonato.

Nessa altura, a hegemonia da I Divisão estava na região Lisboa/Setúbal, casos da CUF, Oriental, Barreirense e Montijo. O FC Porto até 74 tinha cinco títulos nacionais. A deslocalização para o norte deve-se ao desaparecimento do eixo industrial em torno da capital?

Deve-se mais uma vez ao tal complexo de esquerda, que tudo fez para destruir empresas como a CUF e os Mellos. Tudo o que estava ligado ao antigo regime não prestava. Houve muita gente que foi vítima disso. Vou dar um caso concreto: em 1976, era eu deputado da Assembleia da República, eleito pelos imigrantes fora da Europa...

Na lista do CDS...

Nas listas do CDS, mas eu concorri como independente. Nunca fui filiado num partido. A minha filiação é a minha independência, que é a minha cor político-partidária. Digo-o com toda a convicção. Até hoje. A minha carreira está toda para trás, não preciso de nada, só de afecto, que felizmente tenho.

Estava a recordar que foi eleito à Assembleia da República...

Fiz uma viagem com o doutor Mário Soares, na altura Primeiro-Ministro, ao Brasil, para convencer alguns dos que foram empurrados do país a regressar, entre eles António Champalimaud. Mário Soares fez muitas reuniões por todo o lado para os trazer de volta. É preciso não esquecer que Portugal estava numa situação económica desastrosa. A resposta foi não. É curioso verificar que o senhor Champalimaud, depois de todos esses anos, deixou uma obra extraordinária porque gostava do país. Ainda bem que houve o 25 Abril, mas houve muitas injustiças. Fiquei e estou feliz por vivermos em liberdade, sem dúvida, não me peçam é para ignorar injustiças cometidas em nome da revolução. Quando tomei a minha liberdade política de votar e concorrer por quem quis, fui vítima disso. Não ser de esquerda após o 25 de Abril era não montar o cavalo certo.

Sentiu que estava do lado errado entre colegas?

Tive colegas que tiveram esse tipo de atitude. Sempre fui coerente com aquilo em que acredito. Ainda hoje voto em pessoas e não em partidos. O meu conceito de vida, de honestidade e de servir o país não tem cor política. Gosto de pessoas e de justiça social. O problema é que sempre que se fala em justiça social é sinónimo de esquerda. Não há gente de grande valor e que preza a justiça social que não seja de esquerda?

Em 1976 ainda estava a jogar no Benfica?

Já vivia nos EUA. Fiz o último jogo pela Benfica a 11 de maio de 1975 e fui para os EUA logo a seguir. Faço o meu primeiro jogo lá com o Eusébio. Fomos os dois. Tinha mais dois anos de contrato mas pedi para não os cumprir. Querem fazer-me uma festa de homenagem, garantida com 650 contos, mas não quis. Abdiquei porque depois de ter liberdade para concorrer à Assembleia Constituinte e depois à Assembleia da República por um partido que não era de esquerda foi suficiente para ser pessoa non grata. Quando percebo que não me querem, não preciso que me mandem embora. Vou-me embora.

Jogou e treinou vários clubes nos EUA. Quantos anos esteve fora do país?

Entre ir e vir, foram quase 20 anos. Foi uma experiência riquíssima. Ao longo da vida temos de tomar decisões que não são fáceis. E essa foi uma decisão feliz. Há uma parte de mim, no que diz respeito à cidadania, que devo a esses 20 anos fora. Abriram o meu horizonte.

O que o fez apoiar a recandidatura de Bernardino Soares, pela CDU, em Loures?

Votei em Freitas do Amaral, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva... Eu escolho o meu candidato, não é a cor política que me escolhe. Decidi apoiar Bernardino Soares por ser competente e porque o PCP, em Portugal, é o partido melhor preparado e mais transparente na gestão autárquica. Confio nos autarcas da CDU, mesmo não sendo comunista, nem partilhando determinados princípios do partido. Defendo pessoas sérias, como é o caso de Bernardino Soares. E mais do que isso: estou cansado, já nem desilusão é, da discussão do que é a competência em Portugal. Por amor de Deus, já não quero mais competência, quero honestidade. Quero é menos corrupção.

É para si o problema mais grave do país?

O problema de Portugal não é uma questão de competência, mas de desonestidade, de falta de brio em servir o país. É onde tem tem de existir reformas.

Falou em Jorge Sampaio, que julgo foi o vosso advogado quando foi fundado o Sindicato.

Foi, conheço-o desde então. Tenho um programa de televisão quinzenal, à quinta-feira, na SportTV e um dos últimos que gravei foi com o doutor Jorge Sampaio, meu advogado durante 25 anos. Temos uma amizade extraordinária. Foi o primeiro advogado da fundação do Sindicato, mas como era um jovem advogado contestatário, conotado com a oposição ao regime, passou a bola ao doutor Jorge Santos para evitar problemas.

Após 44 anos de democracia, o futebol continua a ser um mundo à parte. Há enorme falta de liberdade, por exemplo, dos jornalistas no contacto com jogadores no ativo. Há uma certa ditadura no futebol?

Não tenho a mínima dúvida. E essa falta de liberdade informativa tem vindo a piorar nos últimos tempos. Penso, aliás, que o futebol era mais democrático no tempo da ditadura do que atualmenete.

A que acha que se deve a blindagem aos profissionais de futebol? Ao seu mediatismo ou ao excessivo controlo por parte dos dirigentes?

Os responsáveis são os dirigentes. Os modelos de gestão dos clubes em Portugal são presidencialistas, é um modelo ditatorial. Criado e inspirado por gente que ainda continua no futebol e que se agarrou a um completo controle dos seus clubes, tirando a voz aos próprios sócios. Mais grave ainda é que a maioria dos sócios gosta disso. Até parece que gostam que mandem neles.

É um modelo de presidencialismo inspirado em Pinto da Costa?

O presidente do FC Porto formatou o dirigente português e também o adepto de futebol. Há uma quantidade de dirigentes que ainda tem o sonho de imitar Pinto da Costa...

Como Bruno de Carvalho?

Ele e vários. E não vejo que tão cedo isso se altere. Recordo-me de ouvir adeptos do Benfica dizerem que o que o clube precisava de um Pinto da Costa. Num clube em que a democracia era exercida pelos sócios nas assembleias-gerais, no tempo da ditadura. Assisti a algumas. Hoje, o futebol é menos democrático do que no tempo da ditadura.

Costuma ir à Luz?

Afastei-me por não me rever em muitas coisas que têm acontecido ultimamente. Não me revejo em quem aparece a falar em representatividade do clube...

Está a referir-se a Pedro Guerra?

Não é só esse, são vários, numa hipocrisia tremenda, num faz de conta com o qual não alinho. Sou muito desalinhado em relação à atual conjuntura. É assim que sempre fui, sou e serei. Não sei se tenho razão, mas quero ser feliz comigo próprio.

Esta época passou-se dos limites no caso dos e-mails, dos ataque às arbitragens ou ao VAR?

Ultrapassaram-se muitos limites. Quem tem responsabilidade no futebol português, nos EUA não seria dirigente desportivos de nada. Zero. No desporto profissional nos EUA, há regras de transparência e de respeito para com o espetador, algo que aqui não existe. É por isso que há sucesso em todos os desportos nos EUA: há qualidade e credibilidade. Aqui quase todos os clubes têm défices tremendos, mas o curioso é que não conheço nenhum dirigente que esteja mal na vida. Há um clube, além de outros, que respeito muito: o Paços de Ferreira. Quem sai tem de deixar contas em dia e exige-se regras a quem entra.

O futebol português precisa de um 25 de Abril?

Urgentemente. Precisa de mais transparência, credibilidade e maior liberdade de comunicação para os seus profissionais.

Fonte: http://tribunaexpresso.pt

 

 

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