O Barcelona é como o menino do recreio que comprou a bola e teima em não a partilhar com os outros. Para jogar há que roubá-la e brincar enquanto ele não exige a devolução. Jorge Jesus prometera um Benfica sem medos e a equipa respondeu ao pedido.
Durante seis minutos os encarnados estiveram concentrados e foram competentes. Criaram perigo, com dois remates de Bruno César – Valdés defendeu um com as pernas, Busquets barrou o outro. Mas a barreira caiu à primeira amostra de futebol do Barcelona.
Foi Messi, no jeito de pulga que não faz mal a ninguém, a preparar o momento. Tabelou com Jordi Alba, fugiu à defesa do Benfica e cruzou rasteiro. Artur ainda tentou chegar à bola, mas o único a tocar-lhe foi Alexis Sánchez, que teve a tarefa mais simples da jogada. O Barça marcava pela primeira vez no Estádio da Luz, depois dos 0-0 de 1991 e 2006.
Defrontar o Barcelona é um dos maiores desafios do futebol moderno – pela forma como a equipa catalã domina a posse de bola, controla o ritmo, tira o alimento ao adversário. Sobretudo quando está em vantagem. Jesus reconhecera-o na véspera: um treinador que promete dividir o jogo com o Barça está a mentir. Por isso o Benfica assumiu a sua condição e apareceu com duas linhas bem desenhadas: Maxi, Jardel, Garay e Melgarejo mais atrás; Salvio, Enzo Pérez, Matic, Bruno César e Gaitán logo a seguir.
A ideia assentava no princípio de que um empate já não seria nada mau. Os problemas começaram quando foi preciso ir à procura dos golos. A reacção imediata ao 1-0 até nem foi negativa. Gaitán desmarcou Salvio (9’) e depois Lima (11’). O avançado brasileiro apareceu à frente de Valdés, mas a mancha do guarda-redes resolveu o assunto.
O Barcelona olhava mais para a esquerda do que para a direita. Parecia uma opção estranha, sabendo-se que Melgarejo tem menos alma para defender que Maxi Pereira. Mas a aposta ia fazendo sentido. Alexis perseguia o uruguaio como uma carraça. Roubava-lhe o fôlego, por vezes também a bola. E a atacar era uma dor de cabeça, ainda mais quando Jordi Alba aparecia para redobrar o poder ofensivo.
O jogo transformava-se num exercício de paciência – para o Barça enquanto não se abria uma brecha por onde passar, para o Benfica até ser capaz de recuperar a bola. Xavi estava mais escondido que Fàbregas, mas volta e meia tirava um passe certeiro do bolso. A genica do meio-campo catalão obrigava Bruno César a um trabalho que não lhe agrada, a um esforço ao qual não está habituado. Estranhava um lugar mais ao jeito de Aimar ou Carlos Martins.
Pedia-se mais ao Benfica, mais do que correr de um lado para o outro como um conjunto de marionetas nas mãos do Barcelona. Enquanto as energias duraram, os momentos de libertação iam aparecendo. Gaitán mexeu-se bem pela esquerda (54’) e cruzou largo, só que Lima não chegou a tempo e Jordi Alba corrigiu a saída em falso de Valdés. Quando Salvio disparou para uma grande defesa do guarda-redes (57’) já o Benfica perdia 2-0.
Messi estava sossegado há demasiado tempo. Decidiu acelerar e foi à sua vida, com aquele ar intocável de quem sabe o que faz e não se preocupa com o resto. Para trás ficaram quatro jogadores do Benfica. O argentino viu Fàbregas aparecer pela esquerda, serviu a segunda assistência da noite e assistiu ao remate que deu o 2-0.
O jogo estava resolvido. O Benfica já não tinha energia para marcar um, quanto mais dois golos. E a impaciência vinha ao de cima, quer nas bancadas (onde os adeptos protestavam a cada falta sobre jogadores do Barcelona), quer no relvado (onde Carlos Martins, entrado ao intervalo, era o mais irritado). Os assobios e os gritos de revolta só pararam quando Puyol saltou na área do Benfica e caiu desamparado em cima do braço. O capitão saiu de maca, agarrado à cara, debaixo de aplausos. Tito Vilanova fez-lhe uma festa na cabeça e voltou os olhos de novo para o campo.
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Era lá que continuava o espectáculo de Messi, apenas interrompido pelo vermelho a Busquets (agressão). Jardel, por exemplo, fartou-se de ficar a ver e bateu--lhe por trás. Pulga cai, pulga levanta-se. O árbitro apitou para o fim do jogo e Messi foi à procura de Aimar, o ídolo de juventude. Abraçaram-se, trocaram de camisola e celebraram o futebol. Messi não marcou – pelo terceiro jogo seguido – mas voltou a ser o menino da bola no recreio. I
Por último, grande ambiente na Catedral.